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A ILHA DOS AMORES – I

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POESIA

A POESIA

Eu, a Poesia e os Lusíadas

Apesar de já nessa altura, ser uma apaioxanada pela poesia,  não gostei dos poucos Lusíadas que estudamos na escola. Sentia uma aversão íntima e expontânea (nada que me fosse ensinado)  à maneira como os indígenas eram referidos, no seu total.

Em segundo lugar, também não gostava do poema ”construído” à força. Das voltas completamente visíveis à frase e ao verso, para encaixar num efeito pretendido, exterior à ideia ou sentimento.  Detestava praticamente toda a poesia em rima! Achava-a retorcida, forçada, falsa. Um fingimento. E eu não acreditava que o poeta fosse um fingidor…
Apesar de desde os 13 a poesia ser a minha maior companhia, só muito tardiamente me interessei pela poesia rimada….

Tenho bastante admiração e curiosidade por pessoas que tiveram um trajecto diferente.

2 poemas sobre A Magna Língua Portuguesa

A nossa Magna lingua portugueza

A nossa magna lingua portugueza
De nobres sons é um thesouro.
Seccou o poente, murcha a luz represa.
Já o horizonte não é oiro: é ouro.
Negrou? Mas das altas syllabas os mastros
Contra o ceu vistos nossa voz affoite.
O claustro negro ceu alva azul de astros,
Já não é noute: é noite.

Fernando Pessoa, 26-8-1930

Acho graça às pessoas que pegam logo no exemplo de Pessoa, pensando assim provar que também ele resistia a mudanças que todos nós hoje em dia achamos bem. Mas quem diz?

Estou curiosa em saber as diferenças que havia entre f e ph. E, se dantes se escrevia oiro, em vez de ouro, pois o meu sentir da língua o aprova. Esse meu sentir, é igual ao que Pessoa descreve no seu poema acima.

E se da negra noute, como noite, gosto mais
É porque ela é repleta de luz, esse oiro, e coisas tais…

A Língua Portuguesa

Esta língua que eu amo
Com seu bárbaro lanho
Seu mel
Seu helénico sal
E azeitona
Esta limpidez
Que se nimba
De surda
Quanta vez
Esta maravilha
Assassinadíssima
Por quase todos os que a falam
Este requebro
Esta ânfora
Cantante
Esta máscula espada
Graciosíssima
Capaz de brandir os caminhos todos
De todos os ares
De todas as danças
Esta voz
Esta língua
Soberba
Capaz de todas as cores
Todos os riscos
De expressão
(E ganha sempre à partida)
Esta língua portuguesa
Capaz de tudo
Como uma mulher realmente
Apaixonada
Esta língua
É minha Índia constante
Minha núpcia ininterrupta
Meu amor para sempre
Minha libertinagem
Minha etena
Virgindade.

Alberto de Lacerda

in Oferenda I, Lisboa, IN-CM, 1984 — 04/11/2007

Apontamentos sobre Tétis, Os Lusíadas X

Os Lusíadas – Canto X

75 ….

Tétis, de graça ornada e gravidade,
Pera que com mais alta glória dobre
As festas deste alegre e claro dia,
Pera o felice Gama assi dizia:

76

– “Faz-te mercê, barão, a Sapiência
Suprema
de, cos olhos corporais,
Veres o que não pode a vã ciência
Dos errados e míseros mortais.
Sigue-me firme e forte, com prudência,
Por este monte espesso, tu cos mais.

Assi lhe diz e o guia por um mato
Árduo, difícil, duro a humano trato.
77

Não andam muito que no erguido cume
Se acharam, onde um campo se esmaltava
De esmeraldas, rubis, tais que presume
A vista que divino chão pisava.
Aqui um globo vêm no ar, que o lume
Claríssimo por ele penetrava,
De modo que o seu centro está evidente,
Como a sua superfícia, claramente.

78

Qual a matéria seja não se enxerga,
Mas enxerga-se bem que está composto
De vários orbes, que a Divina verga
Compôs, e um centro a todos só tem posto.
Volvendo, ora se abaxe, agora se erga,
Nunca s’ergue ou se abaxa, e um mesmo rosto
Por toda a parte tem; e em toda a parte
Começa e acaba, enfim, por divina arte,

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Uniforme, perfeito, em si sustido,
Qual, enfim, o Arquetipo que o criou.
Vendo o Gama este globo, comovido
De espanto e de desejo ali ficou.
Diz-lhe a Deusa: — “O transunto, reduzido
Em pequeno volume, aqui te dou
Do Mundo aos olhos teus, pera que vejas
Por onde vás e irás e o que desejas.

80

“Vês aqui a grande máquina do Mundo,
Etérea e elemental, que fabricada
Assi foi do Saber, alto e profundo,
Que é sem princípio e meta limitada.
Quem cerca em derredor este rotundo
Globo e sua superfícia tão limada,
É Deus: mas o que é Deus, ninguém o entende,
Que a tanto o engenho humano não se estende.

http://www.tabacaria.com.pt/lusiadas/m%E1quina.htm

Garcia Lorca: 4 Baladas amarelas

Quatro Baladas Amarelas

I
No alto daquele monte
há uma arvorezinha verde.

…..Pastor que vais,
…..pastor que vens.

…..Olivais sonolentos
baixam à planície quente.

…..Pastor que vais,
…..pastor que vens.

…..Nem ovelhas brancas nem cachorro
nem cajado nem amor tens.

…..Pastor que vais.

…..Como uma sombra de ouro,
no trigal te dissolves.

…..Pastor que vens.


II

…..A terra estava
amarela.

…..Ourinho, ourinho,
…..pastorzinho.

…..Nem lua branca
nem estrela luziam.

…..Ourinho, ourinho,
…..pastorzinho.

…..Vindimadora morena
corta o pranto da vinha.

…..Ourinho, ourinho,
…..pastorzinho.


III

…..Dois bois vermelhos
…..no campo de ouro.

…..Os bois têm ritmo
de sinos antigos
e olhos de pássaros.
São para as manhãs
de névoa, e sem embargo
perfumam a laranja
do ar, no verão.
Velhos desde que nascem
não têm amo
e recordam as asas
de seus costados.
Os bois
sempre vão suspirando
pelos campos de Ruth
em busca do vau,
do eterno vau,
ébrios de luzeiros
a ruminar seus prantos.

…..Dois bois vermelhos
…..no campo de ouro.


IV

…..Sobre o céu
…..das margaridas ando.

…..Nesta tarde imagino
que sou santo.
Puseram-me a lua
nas mãos.
Eu a pus outra vez
no espaço
e o Senhor me premiou
com a rosa e o halo.

…..Sobre o céu
…..das margaridas ando.

…..E agora vou
por este campo
a livrar as meninas
dos galãs maus
e dar moedas de ouro
a todos os rapazes.

…..Sobre o céu
…..das margaridas ando

Os três poemas daqui

García Lorca – Canção Outonal

Canção Outonal

HOJE sinto no coração
um vago tremor de estrelas,
mas minha senda se perde
na alma da névoa.
A luz me quebra as asas
e a dor de minha tristeza
vai molhando as recordações
na fonte da idéia.

…..Todas as rosas são brancas,
tão brancas como minha pena,
e não são as rosas brancas
porque nevou sobre elas.
Antes tiveram o íris.
Também sobre a alma neva.
A neve da alma tem
copos de beijos e cenas
que se fundiram na sombra
ou na luz de quem as pensa.

…..A neve cai das rodas,
mas a da alma fica,
e a garra dos anos
faz um sudário com elas.

…..Desfazer-se-á a neve
quando a morte nos levar?
Ou depois haverá outra neve
e outras rosas mais perfeitas?
Haverá paz entre nós
como Cristo nos ensina?
Ou nunca será possível
a solução do problema?

…..E se o amor nos engana?
Quem a vida nos alenta
se o crepúsculo nos funde
na verdadeira ciência
do Bem que quiçá não exista,
e do mal que palpita perto?

…..Se a esperança se apaga
e a Babel começa,
que tocha iluminará
os caminhos na Terra?

…..Se o azul é um sonho
que será da inocência?
Que será do coração
se o Amor não tem flechas?

…..Se a morte é a morte,
que será dos poetas
e das coisas adormecidas
que já ninguém delas se recorda?
Oh! sol das esperanças!
Água clara! Lua nova!
Corações dos meninos!
Almas rudes das pedras!
Hoje sinto no coração
um vago tremor de estrelas
e todas as coisas são
tão brancas como minha pena.

García Lorca – Poemas de Andaluzas

Statua di Federico Garc�a Lorca a Madrid. Scultura realizzata da Julio López Hernández

Statua di Federico García Lorca a Madrid. Scultura realizzata da Julio López Hernández

 

Poemas de Andaluzas

Adelina de passeio
O mar não tem laranjas,
nem Sevilha tem amor.
Morena, que luz de fogo.
Empresta-me teu guarda-sol.
…..Ficarei com a cara verde
— sumo de lima e limão —,
tuas palavras — peixinhos —
nadarão em redor.
…..O mar não tem laranjas.
Ai, amor.
Nem Sevilha tem amor!
Tarde
(Estava a minha Lúcia
com os pés no arroio?)
TRÊS alámos imensos
e uma estrela.
…..O silêncio mordido
pelas rãs se assemelha
a uma gaze pintada
com pintinhas verdes.
…..No rio,
uma árvore seca
floresceu em círculos
concêntricos.
…..E sonhei sobre as águas
com a moreninha de Granada.
É verdade
AI, quanto trabalho me dá
querer-te como eu quero!
…..Por teu amor me dói o ar,
o coração
e o chapéu.
…..Quem compraria de mim
este cinteiro que tenho
e esta tristeza de fio
branco, para fazer lenços?
…..Ai, quanto trabalho me dá
querer-te como eu quero!
[Arvoré arvoré]
ARVORÉ arvoré
seca e verdé.
…..A menina de belo rosto
está colhendo azeitona.
O vento, galã de torres,
prende-a pela cintura.
Passam quatro ginetes,
em éguas andaluzas,
com trajes de azul e verde,
com longas capas escuras.
“Vem a Granada, menina.”
A menina não os escuta.
Passam três toureirinhos
de cintura fina,
com trajes cor de laranja
e espada de prata antiga.
“Vem a Sevilha, menina.”
A menina não os escuta.
Quando a tarde ficou
morada, com luz difusa,
passou um jovem que levava
rosa e mirtos de lua.
“Vem a Granada, menina.”
E a menina não o escuta.
A menina do belo rosto
continua colhendo azeitona,
com o braço gris do vento
cingido pela cintura.
…..Arvoré arvoré
seca e verdé.
Tradução de William Agel de Mello


 

Novo texto falso de Pessoa:

E já que estamos em maré de textos falsos. (Isto é, para quem por acaso navegue o blog de baixo para cima…)

Houve uns textos falsos de Pessoa passeando na net. Li num blog a publicação da correção; mas esses textos, não eram aquele que li há poucos dias: ”etapas e desprender-se”
Vem de um sítio convenientemente chamado ”PENSADOR.info”. Informe-se…

Já contactei a casa Fernando Pessoa.

Starry Night – van Gogh, Al Berto, e Canção

Não sabia que ”Starry, Starry Night” era uma homenagem a Vin

cent, vale a pena ver: Vincent (Starry Starry Night) – Don McLean 04:26

http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/6/69/VanGogh-starry_night_edit.jpg

Vincent van Gogh. (1853-1890). The Starry Night. Saint Rémy, June 1889. Oil on canvas, (73.7 x 92.1 cm).

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Poema de Al Berto

ÚLTIMA CARTA DE VAN GOGH A THEO

nunca me preocupei em reproduzir exactamente
aquilo que vejo e observo

a cor serve para me exprimir théo: amarelo
terra azul corvo lilás sol branco pomar vermelho
arles
sulfurosas cores cintilanddo sob o mistério
das estrelas na profunda noite afundadas onde
me alimento de café absinto tabaco visões e
um pedaço de pão théo
que o padeiro teve a bondade de fiar

o mistral sopra mesmo quando não sopra
os pomares estão em flor
o mistral torna-se róseo nas copas das ameixeiras
arles continuou a arder quando tentei matar aquele
que viu a minha paleta tornar-se límpida
mas acabei por desferir um golpe contra mim mesmo
théo
cortei-me uma orelha e o mistral sopra agora
só de um lado do meu corpo os pomares estão em flor
e arles théo continua a arder sob a orelha cortada

por fim théo
em auvers voltei a cara para o sol
apontando o revólver ao peito senti o corpo
como um torrão de lama em fogo regressar ao início
num movimento de incendiado girassol

Al Berto, O Medo

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Carta de van Gogh-Julho 1880-carta 133

You should know that it is the same with evangelists as it is with artists. There is an old academic school, often odious and tyrannical, the `abomination of desolation’, in short, men who dress, as it were, in a suit of steel armour, a cuirass, of prejudice and convention. When they are in charge, it is they who hand out the jobs and try, with much red tape, to keep them for their proteges and to exclude the man with an open mind.

Their God is like the God of Shakespeare’s drunken Falstaff, “the inside of a church.” Indeed, by a strange coincidence, some evangelical (???) gentlemen have the same view of matters spiritual as that drunkard (which might surprise them somewhat were they capable of human emotion). But there is little fear that their blindness will ever turn into insight.

This is a bad state of affairs for anyone who differs from them and protests with heart and soul and all the indignation he can muster. For my part, I hold those academicians who are not like these academicians in high esteem, but the decent ones are thinner on the ground than you might think.

Now, one of the reasons why I have no regular job, and why I have not had a regular job for years, is quite simply that my ideas differ from those of the gentlemen who hand out the jobs to individuals who think as they do.

In the same way I think that everything that is really good and beautiful, the inner, moral, spiritual and sublime beauty in men and their works, comes from God, and everything that is bad and evil in the works of men and in men is not from God, and God does not approve of it.

But I cannot help thinking that the best way of knowing God is to love many things. Love this friend, this person, this thing, whatever you like, and you will be on the right road to understanding Him better, that is what I keep telling myself. But you must love with a sublime, genuine, profound sympathy, with devotion, with intelligence, and you must try all the time to understand Him more, better and yet more. That will lead to God, that will lead to an unshakeable faith.

LER A CARTA completa, Read the whole letter

seguida de uma espécie de tradução numa espécie de tentativa de português, com os desenhos que Vicente juntou à carta.

A maioria das cartas foram escritas em francês! O que também diz muito sobre Van Gogh.

* Fiz uma correção grande neste postal, retirando o que se referia aos excertos de duas carta, que eu citara de duas sites. Fui em busca da referida ”carta de 19 de Junho de 1988”, e não a encontrei.. O mesmo para a ”carta de Theo de Fevereiro de 1989”. Poderá dar-se o caso do sítio das cartas de van Gogh não estar completo, mas até eu ver essas cartas, tudo indica que sejam uma falsa mistela. Deixo aqui o registo dos, em toda a probabilidade, falsos textos.

A carta de Vincent – esta sim: é como está num sítio dedicado às suas cartas, que parece ser de confiança. Já agora… até comparava com o meu livro, mas esse está fora do meu alcance.

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