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A ILHA DOS AMORES – I

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HOLANDA

Estala a alegria na Holanda!

Holanda estaladiça!

Foi hoje que ela os viu alegres, como que pela primeira vez alegres, os risos estalam, as caras coram.

No gelo, o holandês atreve~se a ter sentimentos, é como se assim, protegidos pelo frio exterior, pela solidificação, não houvesse perigo em haver algo genuíno.

Até telefonaram, do trabalho, a darem “ijs vrij”, isto quer dizer, “livres, por causa do gelo”.

Não. Não. Não é isso que vocês pensam. Não é para acudir os aflitos, encravados no trânsito, no meio de neves, ou peões enregelados escorregando nos caminhos e debatendo-se contra o vento.

Meu Deus. (isto é por conta própria.) Isso nessas ocasiões; na aflição, na necessidade, no desespero – ninguém acode. Tanto assim, que o verbo acudir nem sequer existe; nem a palavra; nem o conceito.

Nem tão pouco, a palavra aflição.

Nem tão pouco, a palavra socorro.

Tem-se o dia livre, por causa do gelo, porque os holandeses querem ir gozar do frio e do gelo, da água sólida.

assim mesmo

Tal como a nós o mar alegra, e, tal como quem disso sabe, se purifica nas ondas do mar, assim o holandês se liberta, se entusiasma, no líquido solidificado dos seus negros canais.

É que para um holandês, é isto o Inverno. E um Inverno sem enregelamento, não é Inverno – e queixam-se, queixam-se muito, que não está frio que chegue, por muito que uma pessoa esteja a tremer de frio miserável ao seu lado.

Mas hoje sim, ficou finalmente frio, 8 graus negativos ao Sol – e todos estavam felizes. Nunca os vi assim.

É que, há uns 12 anos pelo menos que não gelava.

Ter filhos que nunca andaram sobre o gelo, é para eles inconcebível.

Era preciso levar as criancinhas ao gelo.

As cadeiras é para ajudar a não caír – porque aquilo escorrega MESMO!

Patinadores no gelo em Kampen (?) 1620         Schaatsenrijders op het ijs bij Kampen (?) Hendrick Avercamp (1585 – 1634) óleo sobre painel de madeira        33 x 52 cm

Aquilo que para nós é a Praia, é para eles o gelo.

O mais engraçado, quase hilariante, foi ao lado de uma senhora toda orgulhosa do seu patinar… e uma criancinha com uma cadeira… ver um apetrecho familiar pousado lado ao canal, no meio das estradas da cidade: era igual àquilo que levamos para a Praia! – menos os fatos de banho, já se vê: mas o piquenique e as coisas para as crianças, as toalhas para se sentarem… tudo aquilo… no meio de um frio de rachar.    🙂

Ela saiu! Foi ao Paraíso. E estava linda…

Foi a primeira vez que ela saiu.

Em anos. Em muitos anos. Desde as tragédias. Mas como ”desde as tragédias”se já antes disso era… bom, está bem. Já antes disso tudo era mais difícil que… que o quê? Como vamos comparar? Não comparamos. Deixamos assim, antes de todas as tragédias, dos anos de tragédias, já os dias, já os meses, já os longos anos foram mais difíceis do que. Do que o humanamente suportável? Eu fi-lo humanamente suportável, e há coisas piores. Há coisas piores, talvez

Ela. Era aí que íamos. Saiu. Arranjou-se. Foi lindo. Não o fazia (assim, para ”sair”) desde há muitos anos, com a excepção de um casamento aí há meio ano. Então também estava linda. Conseguira reunir as roupas. Também não eram dela. Desta vez, foi a mesma coisa. Aí uns três quartos de hora antes, procurar no guarda-fato. E depois não dar o tempo para tudo, já se vê. Uma saia preta comprida, de quem, nem sabia, nem sabe… como veio ali parar? Alguém, amigo ou conhecido deu, em vez de deitar fora… e ficou ali anos… racha atrás, felizmente tinha boas meias, transparentes pretas (depois de provar uns dez pares todos com malhas e que finalmente foram todos fora). E os sapatos. Lindos e de salto alto. Ela nunca usa salto alto. Ninguém gostará de ler coisa tão trivial… mas para ela, tudo é especial. Tinha uma blusa só de uma alça e um ombro nú, preta com estrelinhas vermelhas cor de vinho. E uma écharpe linda da mesma cor. O cabelo, nem se lembrara de o lavar demanhã para sair hoje. Mas mesmo assim, resultou. Estava linda. Quase tudo era assim, improvisado. Estava feliz. Sentia-se tão leve, assim.

De bicicleta. Felizmente, a temperetura ainda não está muito baixa. Deu para por um casaco de malha e um blazer. Ela não gosta, nunca gostou de roupas de Inverno. É a pele. Aquela pele ”mais macia que jamais toquei na vida” – ouviu tantas vezes, as exclamações de surpresa. Sim. É sedosa e muito sensível a pele, e não aguenta o contacto com a lã. Porque tudo se sente, quando se é assim. Sente-se o ar, e os segredos. Sente-se os leves movimentos de cabeça – mas sobretudo sentem-se os acenares dos sentimentos, as transformações, os sons e os ventos e os ruídos dos sentimentos e os murmúrios dos inconscientes reagindo.

Atravessaram as ruas, era perto e a praça era bonita, é talvez a única praça bonita da cidades e as folhas de Outouno cobrem todo o solo da praça (um dia quando a vida estiver melhor ela tirará umas fotografias para mostrar aos amigos e inimigos e desconhecidos do blog. Por enquanto ela não tem câmara. Tem só os ventos e os rastos das tragédias que a perseguem como o vento que nos segue levantando os cabelos compridos e a écharpe e o casaco atrás de nós quando o vento sopra de frente e nós vamos na bicicleta.

Era uma Igreja. Era a Igreja principal da capital. Ou uma das principais. É aqui que dão muitos concertos, muitos. Os bilhetes são 15 a 20 €. E a Igreja é a Igreja mais feia que já vi na vida. É protestante. A cidade é rica e tudo está sempre pintado e arranjado, mas a Igreja tem as paredes, desertas e desajeitadas, cinzentas e manchadas, como nunca vi uma Igreja assim antes. Não há sentimento, não há calor, não há devoção. Não há sacralidade. É como se continuamente quiseseem manter fora dali a sacralidade. Para além disto não há um elemento de beleza – até a Igreaj da Santa Trindade passa a bonita em comparação… *
O concerto começou. Outra vez explica-se porquê ali, porquê uma Orquestra menos boa. E no entanto, a obra dos compositores, e a sinceridade dos artistas, foi de cair. Que maravilha. Música. A Amada, a Alada. Que ao princípio, quando as tragédia aconteceram, e ela ficou sem música, a dor era tanto que a falta de música lhe fazia o corpo todo gritar de dor. Literalmente. Doía o corpo. Arranhava. E hoje ela ainda não tem como ouvir música a sério.

O concerto, os olhos fechados (estavamos longe ainda por cima) – mas até isso não fez mal. Oh maravilha das maravilhas! Como pode Deus fazer que desçam à Terra pessoas capazes de fazer música, enquanto as outras pensam em como criar os sofrimento dos outros? Enquanto o resto da bangunça? Deus Meu.

À Capellla. Eu adoro música à Capella e Música Sacra. Põem-me no máximo do êxtase – Tudo desapareceu. Claro que tudo desapareceu. E também ela, a amiga que me acompanhava, estava feliz.

Bach, Brukhner, Purcell, Mahler. Espantoso o programa. É assim, o Paraíso.

* Cortei uma frase, pois que desviava completamente do assunto e sem qualquer relação.

Chapéu de Chuva – 2

No último postal, digo que o levar o chapéu de chuva encontrado ”é roubo”. Não sei se está certo dizer assim ou se é afirmação demasiado categórica. O que eu quero dizer é que para mim é roubo? Também não. Gostaria de chegar a algo mais do que o que é ”para mim”. Quero dizer que é melhor mantermos a lucidez de que se temos organizado uma secção de achados e perdidos onde se podem procurar os objectos perdidos, então guardar para nós as coisas de outros, é roubar. Não quero dizer que todos os que fazem isso, estejam a roubar intencionalmente, ou que sejam ladrões. Aquele rapaz não é ladrão. Parece-me até ser um bom rapaz. Para ele, o que está a fazer, obviamente, não é roubar: ele acredita que está a agir bem, e ”como outros fariam na mesma situação” – possivelmente ele não conhece outra coisa.

Ora bem: é por causa deste ”provavelmente ele nem conhece outra coisa”, que não é trivial falar disto, pois não? É trivial a diferença entre um dia-a-dia onde não se pode deixar, por momentos e seja onde for, um objecto, sem que ele logo desapareça, e o dia-a-dia onde deixamos o porta moedas na cabine telefónica e ao voltarmos, notamos que as duas pessoas que entretanto fizeram uso do telefone, deixaram o porta-moedas no mesmo sítio… (já me aconteceu em Portugal, assim como várias situações semelhantes)? Não. É a diferença entre viver com um mínimo de confiança, ou viver rodeado de pessoas em quem não se pode confiar.

Se não se falar disto porque é algo de trivial (ou chamar-lhe-ão moralista?), o resultado é essa sociedade onde massas inteiras de pessoas são como o jovem em questão: se os outros fazem assim, nós também fazemos, e achamos que é normal. Quando isto é normal, as situações relacionadas com este facto, são contínuas.
Esta questão do roubo tem tido um papel bastante grande no meu conhecimento e experiência da cultura que se auto-intitula e pensa a ”Ocidental”, e na vivência de… choques culturais.

Não posso garantir, pois não sei o que o tempo me permite, (e outras obrigações e responsabilidades estão em primeiro lugar) mas quem me continuar a ler, verá como este tema é de importância talvez impensável à primeira vista.

O chapéu de chuva -1

Foi ante-ontem, desta vez fui a horas. Depois do comboio, no autocarro para a Universidade, um colega do meu ano, foi simpático. À chegada, perguntou a mim e mais duas colegas:

— Querem este chapéu de chuva?

— Não, obrigada, já tenho um – Disse uma.

— Eu também, – disse a outra.

— E tu? – perguntou-me de novo. Olhei-o com ar interrogador. Andei meses sem chapéu de chuva, pois não trouxe o meu de Portugal, e tudo o que seja ter que comprar coisas é para mim de momento uma grande dificuldade: tenho medo, tenho que me preparar imenso tempo. Custa-me. É uma vitória quando finalmente o faço. Mas eu comprara o meu chapéu de chuva…um dia antes.

— Tens um? – Repetiu ele. Os meus olhos continuaram fixos no chapéu de chuva. Na verdade, neste País, uns quantos chapéus de chuva não são a mais. Aliás porque um não dura muito. O vento. Os roubos. E aquele era mais forte que o meu, fraquote.

— É que deixaram este no comboio. — esclareceu. Oh, pensei, atrapalhada…enquanto os pensamentos passavam no meu espírito.

— E é um bom chapéu de chuva, – disse uma.

— Pois é, – disse a outra. – E eu aguentava-me. Não haveria achados e perdidos?

— Já tens um? Se não tens podes ficar com este. Se tens eu vou dar ao Jan – acho que ele no outro dia não tinha. Eu já tenho um. De alguém que no outro dia deixou no autocarro, também. Não queres?

— Não, obrigada. – Consegui finalmente dizer. Um guarda-chuva roubado, pensei. E queria perguntar se não podia trazer a uns achados e perdidos… mas não perguntei. Porquê? Por ser ofensivo…
Passadas 3 horas de aula de metafísica, depois do comboio chegar a Haia, já na estação, aquilo continuava a rodar-me na cabeça. Vejo dois homens de uniforme, da Ferroviária:

— Boa tarde. Digam-me por favor: não existe uma secção de achados e perdidos?

— Sim. Claro. – E seguiu-se explicação de grande e esmiuçada rede de achados e perdidos. Podia-se entregar o chapéu de chuva em qualquer das estações ferroviárias, rodoviárias, sem exigência de perda de tempo.

Mas o que ele fez é o normal. Por isso é que eu não perguntei nada. Como é que se encaixa isto na minha mente? É roubo, mas não se pode dizer nada porque o que ”para mim” é roubo – e é roubo – para ele não é roubo. Como para mim é roubo, é ao mesmo tempo ofensivo perguntar. Para mim seria ofensivo, se alguém me perguntasse isso. Deve partir dele, não? Claro que sim.

— Oh! – disse a Juno, quando lhe contei. – Isso não é roubo. Eu faria o mesmo.

— Pois então, ficas a saber: não o faças nunca, porque é roubo. E sei de milhares de pessoas em Portugal que, mesmo pobríssimas, fariam tudo para ir entregar o chapéu de chuva. Disse eu.

— E se ninguém for buscar? – Perguntou.

— Se ninguém for buscar é porque todos roubam, e alguém tem que quebrar o círculo e quando mais pessoas levarem, mais vão buscar.

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