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A ILHA DOS AMORES – I

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Caderno 1

Ela saiu! Foi ao Paraíso. E estava linda…

Foi a primeira vez que ela saiu.

Em anos. Em muitos anos. Desde as tragédias. Mas como ”desde as tragédias”se já antes disso era… bom, está bem. Já antes disso tudo era mais difícil que… que o quê? Como vamos comparar? Não comparamos. Deixamos assim, antes de todas as tragédias, dos anos de tragédias, já os dias, já os meses, já os longos anos foram mais difíceis do que. Do que o humanamente suportável? Eu fi-lo humanamente suportável, e há coisas piores. Há coisas piores, talvez

Ela. Era aí que íamos. Saiu. Arranjou-se. Foi lindo. Não o fazia (assim, para ”sair”) desde há muitos anos, com a excepção de um casamento aí há meio ano. Então também estava linda. Conseguira reunir as roupas. Também não eram dela. Desta vez, foi a mesma coisa. Aí uns três quartos de hora antes, procurar no guarda-fato. E depois não dar o tempo para tudo, já se vê. Uma saia preta comprida, de quem, nem sabia, nem sabe… como veio ali parar? Alguém, amigo ou conhecido deu, em vez de deitar fora… e ficou ali anos… racha atrás, felizmente tinha boas meias, transparentes pretas (depois de provar uns dez pares todos com malhas e que finalmente foram todos fora). E os sapatos. Lindos e de salto alto. Ela nunca usa salto alto. Ninguém gostará de ler coisa tão trivial… mas para ela, tudo é especial. Tinha uma blusa só de uma alça e um ombro nú, preta com estrelinhas vermelhas cor de vinho. E uma écharpe linda da mesma cor. O cabelo, nem se lembrara de o lavar demanhã para sair hoje. Mas mesmo assim, resultou. Estava linda. Quase tudo era assim, improvisado. Estava feliz. Sentia-se tão leve, assim.

De bicicleta. Felizmente, a temperetura ainda não está muito baixa. Deu para por um casaco de malha e um blazer. Ela não gosta, nunca gostou de roupas de Inverno. É a pele. Aquela pele ”mais macia que jamais toquei na vida” – ouviu tantas vezes, as exclamações de surpresa. Sim. É sedosa e muito sensível a pele, e não aguenta o contacto com a lã. Porque tudo se sente, quando se é assim. Sente-se o ar, e os segredos. Sente-se os leves movimentos de cabeça – mas sobretudo sentem-se os acenares dos sentimentos, as transformações, os sons e os ventos e os ruídos dos sentimentos e os murmúrios dos inconscientes reagindo.

Atravessaram as ruas, era perto e a praça era bonita, é talvez a única praça bonita da cidades e as folhas de Outouno cobrem todo o solo da praça (um dia quando a vida estiver melhor ela tirará umas fotografias para mostrar aos amigos e inimigos e desconhecidos do blog. Por enquanto ela não tem câmara. Tem só os ventos e os rastos das tragédias que a perseguem como o vento que nos segue levantando os cabelos compridos e a écharpe e o casaco atrás de nós quando o vento sopra de frente e nós vamos na bicicleta.

Era uma Igreja. Era a Igreja principal da capital. Ou uma das principais. É aqui que dão muitos concertos, muitos. Os bilhetes são 15 a 20 €. E a Igreja é a Igreja mais feia que já vi na vida. É protestante. A cidade é rica e tudo está sempre pintado e arranjado, mas a Igreja tem as paredes, desertas e desajeitadas, cinzentas e manchadas, como nunca vi uma Igreja assim antes. Não há sentimento, não há calor, não há devoção. Não há sacralidade. É como se continuamente quiseseem manter fora dali a sacralidade. Para além disto não há um elemento de beleza – até a Igreaj da Santa Trindade passa a bonita em comparação… *
O concerto começou. Outra vez explica-se porquê ali, porquê uma Orquestra menos boa. E no entanto, a obra dos compositores, e a sinceridade dos artistas, foi de cair. Que maravilha. Música. A Amada, a Alada. Que ao princípio, quando as tragédia aconteceram, e ela ficou sem música, a dor era tanto que a falta de música lhe fazia o corpo todo gritar de dor. Literalmente. Doía o corpo. Arranhava. E hoje ela ainda não tem como ouvir música a sério.

O concerto, os olhos fechados (estavamos longe ainda por cima) – mas até isso não fez mal. Oh maravilha das maravilhas! Como pode Deus fazer que desçam à Terra pessoas capazes de fazer música, enquanto as outras pensam em como criar os sofrimento dos outros? Enquanto o resto da bangunça? Deus Meu.

À Capellla. Eu adoro música à Capella e Música Sacra. Põem-me no máximo do êxtase – Tudo desapareceu. Claro que tudo desapareceu. E também ela, a amiga que me acompanhava, estava feliz.

Bach, Brukhner, Purcell, Mahler. Espantoso o programa. É assim, o Paraíso.

* Cortei uma frase, pois que desviava completamente do assunto e sem qualquer relação.

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Aqui, por Deus! Só uns dias?

Perdi todo este texto, mais uma vez…

Aqui eu falara, em forma de verso… da casa onde estou, de estar neste Paíz e cidade de luz, …. num buraquinho escuro que é esta casa onde tudo é descuidado, até as estantes são feias, menos o que nela é do meu cuidado, os meus livros…

De como é estranho, ser só uma questão de ir tirar o livro da estante, para poder transcrever um meu poema preferido. Para mim, é estranho….

E de como ao mesmo tempo, o faço sob todos os sentimentos de culpa, pois que não devo… muitas outras obrigações me pressionam.

Por isso tanbém não tenho o sentimento para repetir o postal. Mas este é seguido pelo postal posterior com o que é um dos meus poemas favoritos: ”A Nossa Senhora” do A. Nobre.

Ouvi falar – Caderno1 – II

Autistas – 1986
Técnica mista sobre papel mista –
170×98 cm

Isabel de Sá


Ouvi falar o doutor que de Portugal ser pobre dizia

e do meu dizer que antes ele é rico, saber, o doutor não queria.

Coitado de Portual que do Universo rei verdadeiro, quer ser

quando na verdade, nem sua cegueira consegue ver!

Mas se cuidasse o Deus, das palavras em mim para aos homens dizer

quem cuidaria do coração que em tanto meigo homem habita

Para um dia a Humanidade, Criança, de novo, Ser –

como Deus, do início dos tempos, dita?

Ah fosse eu rei! – pelo saber-fazer do que agora não sei –

homem! – para poder o que só eles podem –

medíocre! Ou outra coisa qualquer!

Desta Angústia, como outros, eu não sofreria!

Incomodar-me-ia apenas, ligeira, como o faz há sete mil anos a mulher

quando já a meio, a guerra, a perda, o horror, irreversível, se anuncia.

Caderno I: Os nomes – I

Beethoven – Symphonie Nr. 6 (Pastoral) I
09:33

From: bugopolo

Eu sei uma história. Sei contar uma história. Há pessoas que escrevem porque sempre tiveram talento para tal. São os grandes escritores. Há pessoas que escrevem apenas porque chegaram ao limite de tudo.

O Alberto tinha chegado ao limite de tudo. Por isso ele escreveu bem. Simplesmente. E com luz. Como se escrevesse para uma mulher, quando ele escreveu um pouco sobre o amor, escreveu bem. Oh eu bem sei que esse tipo de perdição… prendeu-nos, acorrentou-nos, como se só essa perdição fosse real. Como se tudo tivesse que meter sempre o asco, para ser real.

Existe outro rosto no Al Berto, de quem falo. E eu chamei-lhe poeta verde. Mas passaríamos lado a lado em sentidos contrários e não nos teríamos entendido…Há sempre qualquer coisa idêntica a essa província onde me chamaram nomes, logo, desde pequena. Nomes, sempre os mesmos mesmo que soem diferentes. São sempre julgamentos que falam do vento que ácido, vermelho, vem do longe –

Oh quem diz que é com as vossas pa-la-vras, vossos tijolos, construídos nos fornos desde os tempos do hereje Akhenáton – quem diz que é com esses que lanço o meu grito – faltam-me as pa-la-vras. Era ainda tão criança e menina quando fui expulsa da cidade, do cio, do meu Sol.

São horas de dormir. Não durmo há meses. Tudo roda na minha cabeça exausta. Mas hoje vou dormir. Porque escrevi. Não sei que faço. Escrevi não por ser escritora nem poeta – e que te importa a ti que eu seja? Apenas a mim me importa porque nos temos que levar a nós um dia, a Ele. Engraçado. Eu, que nada sei, isso, eu sei. E de nada absolutamente de nada serve esse saber inútil. Mas de nada disto agora devo falar. Mais vale não deambular por caminhos de que tenho que apagar depois os vestígios – que trabalheira de novo. Não fiz eu outra coisa senão apagar os vestígios de todos os lugares por onde passei. Não fiz eu outra coisa senão passar sem deixar vestígios…. e continuo dizendo aquilo que exige de mim apagar, e voltar atrás. Rever, e corrigir, e cortar. Não posso mais. É disso que – não posso mais. Estou enjoada de cortar, de segurar, de pesar. Eu quero deixar todo este caminho, encontrar um riacho, saltar completamente para o desconhecido, um riacho que se crie aqui agora já, inevitavelmente divino, surgido das entranhas deste deserto que habito há anos tão longos que vou passar a maior vergonha ao ter que dar conta destes anos.

Cheguei aos limtes. De tudo e do nada. Sei os nomes que me chamam, que sempre chamaram Ah era aqui que íamos! Essa ponta do lenço de algodão real: os nomes que me chamam. Porque haveria de ser esse material menos bom como ponto de partida? Menos bom do que qualquer outra coisa?

Eu conheço o desespero dos túneis debaixo da terra – eu conheço tudo, conheço o altíssimo além – pobres! Pensam eles que falo de poesia, – e conheço as entranhas de tudo – mas daquilo a que chamam vida, daquilo a que chamam Mundo, eu nada sei.

Por isso não sirvo. Não sirvo para fazer café. Não sirvo para a decoração das paredes do destino, e está certo que não sirva pois se nunca decorei nada, nem casa, nem sala, nem quarto. Gosto apenas de paredes nuas. De chão nu. Gosto da cal. Da pedra.

Mas agora devo terminar, e não para continuar. Nada se sabe sobre o amanhã. Sei apenas que a cama precisa ser mudada. E que até isso me custa. Vou mudar os lençóis que passarão a lençois apenas porque ninguém é capaz de se levantar e dizer não – Eu seria capaz se reunisse as condições, mas eu, não sou. Para dizer não, é preciso ser-se algo – ter defenição. Eu, nada tenho, a não ser um Universo enorme e virgem inteiro por resolver. Atirar-me a ele, exactamente como os pobres dos condenados eram atirados aos leões. Sim. Assim. É esse o meu programa de amanhã, de domingo. É preciso atravessar isso antes de viver. Antes de saltar nesse rio do desconhecido.

Engraçado, mas escrever é simplesmente nada querer.

A agora interrogo-me se vou deixar isto para aqui a sangrar… Sim tem que ser, por causa do eco. Gritar no seio destes rochedos escarpados e altíssimos onde me encontro perdida, e não receber o som do eco de volta é demasiado para a minha fragilidade. É apenas o acto da Natureza. Da nudez. É, afinal, apenas a ela que falo. Às rochas escarpidas em volta do abismo. Não guardo porque não há mais tempo para guardar. Vivemos no fim. Não há mais tempo. É preciso gritar. Não há mais tempo para tudo o que quero, a preparação – Oh pobre de mim!!! O aprender, o aprender que tanto procuro! Não. Há só este ficar assim nú em toda esta pobreza. Nú com tudo o que falta. Sem sexo, sequer. Sem amanhã. Só ansiando de novo aquele rio que conheci, sem mais nada, suspensa, até o momento de poder saltar no rio que me limpe de novo. Não esperando mais a alegria. Mas simplesmente estar limpa.

E não falei do vento que ácido, vermelho, vem de longe. Não faz mal. Isso são apenas os julgamentos dos outros que falam exclusivamente e sempre de si próprios. Os tais nomes que me chamam.

Resusmo:

O importante? Não esquecer: Eu, nada tenho, a não ser um Universo enorme e virgem inteiro por resolver. Atirar-me a ele, exactamente como os pobres dos condenados eram atirados aos leões. Sim. Assim. É esse o meu programa de amanhã, de domingo.

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