O lobo e o Capuchinho

O Capuchinho Vermelho

Era uma vez uma linda menina de quem todos gostavam muito. A avó, então, essa nem sabia que mais lhe havia de dar! Certa vez ofereceu-lhe um capuchinho de veludo vermelho que lhe ficava tão bem que a menina nunca mais o tirou e assim passaram a chamar-lhe “Capuchinho Vermelho”.
Um dia, a mãe chamou-a e disse-lhe:
— Anda cá, Capuchinho Vermelho. Pega neste bolo e nesta garrafa de vinho e leva‑os à tua avó, que está doente. Vão fazer-lhe bem. Quando lá chegares não te esqueças de lhe dar um beijo e não andes a bisbilhotar pela casa toda. Agora, é melhor ires antes que fique muito calor. E não te afastes do caminho senão tropeças, cais, partes a garrafa e a avó fica sem nada.
― Vou fazer tudo direitinho! ― respondeu o Capuchinho Vermelho, despedindo-se da mãe.
A avó vivia no meio da floresta, a cerca de meia hora da aldeia. Na floresta, o Capuchinho Vermelho encontrou o lobo, mas, como não sabia que ele era mau, não se assustou.

O Capuchinho Vermelho por Gustave Dorépor Gustave Doré

― Bom dia, Capuchinho Vermelho ― disse-lhe ele.
― Bom dia, senhor Lobo.
― Onde vais tão cedo?
― Vou a casa da minha avó.
― E o que levas no avental?
― Levo um bolo que fizemos ontem e uma garrafa de vinho. São para a minha avó, que está doente, ganhar forças.
― E a tua avó, onde é que ela mora?
― Mora um pouco mais longe. A casa fica debaixo de três grandes carvalhos e, mais adiante, há três nogueiras. Já a deves ter visto.
O lobo pensou: “Esta menina tenra deve ser uma delícia. Bem melhor do que a avó. Tenho de arranjar uma artimanha para as comer às duas”.
Acompanhou o Capuchinho Vermelho por uns momentos e disse-lhe:
― Capuchinho Vermelho, já viste que lindas flores? Por que não olhas à tua volta? Tenho a impressão de que nem ouves o chilrear dos passarinhos! Vais a direito como se fosses para a escola e, no entanto, aqui na floresta é tudo tão divertido!
O Capuchinho Vermelho levantou os olhos e viu os raios de sol a dançarem entre as árvores, por todo o lado flores, e pensou: “A minha avó havia de ficar toda contente se eu lhe levasse um ramo”.
Saiu do caminho e pôs-se a colher flores. Mal colhia uma, logo via outra mais bonita adiante, corria para lá e assim se foi embrenhando na floresta.
Quanto ao lobo, esse correu a casa da avó e bateu à porta.
― Quem é?
― É o Capuchinho Vermelho. Trago-te um bolo e vinho. Abre!
― Dá a volta ao trinco ― gritou a avó. ― Estou demasiado fraca para me levantar.

O Capuchinho Vermelho por Gustave Doré
O lobo deu a volta ao trinco, empurrou a porta, entrou e, sem dizer palavra, foi direito à cama da avó e comeu-a. Depois vestiu-se com as roupas da velhinha, pôs a touca, deitou-se na cama e correu as cortinas.
Entretanto, o Capuchinho Vermelho apanhava flores, e só quando já não conseguiu pegar em mais é que se lembrou da avó e se pôs de novo a caminho. Ficou espantada ao ver a porta aberta e, quando entrou, tudo lhe pareceu estranho. “Meu Deus – pensou – que medo tenho hoje, quando gosto tanto de estar com a avó!”
Deu os bons-dias, mas não lhe responderam. Foi até à cama e abriu as cortinas. A avó, deitada com a touca enfiada até aos olhos, tinha um ar esquisito.

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― Oh! avó, que grandes orelhas tu tens!
― São para te ouvir melhor, minha netinha.
― Oh! avó, que grandes olhos tu tens!
― São para te ver melhor, minha netinha.
― Oh! avó, que grandes mãos tu tens!
― São para te abraçar melhor, minha netinha.
― Oh! avó, que boca tão grande tu tens!
― É para te comer.

Dizendo isto, o lobo saltou da cama e devorou o Capuchinho Vermelho.
Já sem fome, voltou a deitar-se, adormeceu e pôs-se a ressonar muito alto. Um caçador que, precisamente naquele momento, ia a passar por ali, pensou: “Como é que a velha está a ressonar tão alto? É melhor eu ir ver se ela não precisa de nada.”
Entrou no quarto e aproximou-se da cama: o lobo estava lá deitado.
― Até que enfim que te encontro, grande patife! Ando há tanto tempo à tua espera.
Pensou em apontar-lhe a arma; mas lembrou-se de que o lobo podia ter devorado a avó. Assim, não atirou; pegou num par de tesouras e pôs-se a abrir-lhe a pança. O lobo continuava a dormir. Ao dar as primeiras tesouradas, o Capuchinho Vermelho saltou lá de dentro a dizer:

― Ai que medo eu tive! Como estava escuro dentro da barriga do lobo!
Depois foi a vez de a avó sair, ainda viva, mas mal podendo respirar. O Capuchinho Vermelho foi rapidamente buscar umas pedras grandes e com elas encheu a pança do lobo. Quando este acordou, quis fugir, mas as pedras eram tão pesadas que caiu ao chão e morreu.
Então os três ficaram todos contentes. O caçador ficou com a pele do lobo. A avó comeu o bolo e bebeu o vinho que a neta tinha trazido e sentiu-se melhor. Quanto ao Capuchinho Vermelho, pensava: “Nunca mais volto a desviar-me do caminho quando a minha mãe mo proibir.”

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