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A Onda,  por Camille Claudel

Por Artur Rosa Teixeira:

Um dos argumentos utilizados na defesa dos OGM é de que só com alimentos transgénicos será possível mitigar a fome mundial. Nada mais falacioso. Tem sido precisamente a saga de um comércio de trocas desiguais, de que as multinacionais são grandes responsáveis, que tem fomentado a fome no Mundo e o caso da Índia é claro exemplo disso. Pague-se o justo valor à agricultura tradicional e veremos surgirem de novo mercados de lavradores por todo o Planeta. Lembramos que só 10% da crusta terrestre é utilizada na alimentação do homem. Significa que a fome só existe porque convém à Economia vigente, que vive da escassez, em muitos casos induzida para criar dependências e a alta de preços.

……Infelizmente, este aspecto não foi referido na “mídia” portuguesa. Porque será?

A história dos agricultores indianos é exemplar a respeito do que estamos a reflectir. Aliciados pelas vantagens económicas do Algodão Bt, um algodão com um gene resistente a um tipo de praga endémico na América do Norte, abandonaram a cultura tradicional. E o fizeram sob o beneplácito das autoridades indianas regionais, algumas das quais ditas de Esquerda. Para tanto, foi-lhes facilitado financiamento para a compra das sementes transgénicas à Monsanto, maior empresa do ramo, que garantia o escoamento da produção a preços, claro está, deflaccionados. Com o tempo verificaram que afinal o Algodão Bt não era tão imune a pragas como os seus patrocinadores publicitavam. Por recomendações dos técnicos da multinacional, complementaram o tratamento com pesticidas, claro, da Monsanto. Tiveram então que recorrer a mais crédito, um crédito cada vez mais caro. Mais tarde, uma outra praga ataca as raízes do Algodão Bt e destrói toda uma safra. Em pouco tempo, os algodoeiros indianos vêem-se sem produção e com uma dívida monstruosa às costas, com os agiotas, alguns trabalhando como agentes para a Monsanto, a bater-lhes às portas. Sem alternativas, nem sequer de voltar às culturas tradicionais por falta de sementes isentas de OGM e porque os solos se encontram contaminados e estéreis, alguns entregam as terras e migram para as cidades com as famílias, juntando-se aos milhões de famintos que por lá pululam. Outros, pura e simplesmente suicidam-se. Contam-se cerca de 25 000 suicídios entre os pequenos e médios proprietários de terras de Algodão Bt, até ao final da década de noventa.

via Somos Portugueses – Artigos – A Saga dos Transgénicos, por Artur Rosa Teixeira.


A Índia é um país habituado à pobreza. Se as pessoas se matassem na Índia por serem pobres, onde estariam elas? Um indiano não se mata por ser pobre. Mas um indiano assolado pelos tubarões assassinos* que lhes chuparam o sangue e as suas vidas, é outra coisa. Arruinados, traídos, humilhados, sem recursos, condenados até ao fim da vida com situações e dívidas injustas e insolúveis. Escravizados.

A mim custa-me imaginar a dor e o desespero que são precisos para levar 25.000 portugueses ao suícídio, nuns poucos de anos. Portugueses, indianos, é a mesma coisa. O que fazer para que não chegue essa hora para Portugal, e para muitos mais milhares em todo o Mundo?

* Concerteza que muitos dos que ajudaram os agricultores a adoptarem os transgénios, fizeram-no por bem. Não sabiam melhor. Alguns, não podiam mesmo saber.

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