Memórias Derretidas


Criei uma viagem para esquecer

os buracos negros do passado.

Assim iria finalmente vencer

o irreversível desespero do meu fado.


Voltei dum novo passado convencida

das belezas que inventei,

Vi uma imagem minha renascida

nos mares onde nadei.


E cá voltei, aqui, presente

e logo o futuro me pegou.

Puxou com pressa sempre em frente,

e toda a viagem se apagou.


Em desespero estendi meus braços,

fixei os olhos e tentei lembrar

o movimento lento dos meus passos,

aquele calor quieto no ar.


Um frio forte me respondeu,

agarrou-m’as memórias e as congelou

como pedras pesadas no peito meu.

Assim, acartada, por todo o lado, vou.


Sabendo que na vida houve momentos

em que não havia ninguém para convencer,

quando eu era os meus sentimentos

e o mundo parava só para eu os ver.


São as coisas de que se fica à procura

sem saber bem o que foi perdido

A busca irá tornar-se em loucura

e serei escrava dum coração ardido.


Desisto de lutar com as memórias derretidas

e com o medo de cair das janelas que abri.

Porque o que me introduziu à vida

foram os momento em que morri.


Flor           6-7 de Fevereiro 2006


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