Laranxeira Naranjo GFDL.JPG clicar em cima da imagem

A Isabel , contou como a morte pode ser um canto, a cheirar a flores de laranjeira… e a ar, e a luz. Este canto que ela nos trouxe, vindo do seu avô, foi uma lição para mim: inspira-me, e envergonha-me, simultaneamente.

Envergonha-me pelas pessoas que atravessam suplícios incomunicáveis em cubículos de aço e gelo, de frigidez cáustica rangendo, segundo após segundo; onde o dia e a noite passa gota-a-gota, como uma eternidade do insuportável. Lá onde quantas vezes nos pegam na alma e a esmagam, lá onde não há fuga à cáustica soberba dos que nos reduzem a um corpo manipulado por máquinas – nem sequer fuga às agulhas com que pretendem desenvecelhar-se dos restos desses corpos.

A nossa cultura da morte, é um espelho da nossa ignorância, e bárbara crueldade.

Mas esta ária das laranjeiras, vinda do jardim do avô, esta morte digna, poderia inspirar-nos. Para permitirmos a um amado, quando possível – ou a alguém que só o nosso amor tenha – morrer num jardim, debaixo do céu azul. Ou morrer no jardim do nosso amor. Ou embalado por canto sagrado, ou pela poesia. Partir, inteiro. Rodeado do que lhe deu sentido à vida, para que em Paz, possa sentir-se preparado ao morrer. De que serve a nossa arte, se os nossos queridos partem privados de tudo aquilo que os poderia ajudar a elevar a alma, e de tudo aquilo de que necessitam espiritualmente?

Preparar a partida, e partir, requer que possamos encontrar a nossa forma de partir. Cada um. Tanto o nascimento como a morte, não podem ter um esquema fixo, industrializado.

Ar, luz, poder fazer qualquer coisa, nem que seja uns poucos de movimentos, tudo isso é melhor do que o tempo extra preso a soro e máquinas, quando isso não tenha qualquer sentido. O nascer-do-Sol, o pôr-do-Sol, a música sagrada, ajudar, apoiar e proporcionar todo o exercício espiritual que a pessoa possa e queira.

Isto não é, muitas vezes, possível… mas é possível melhorar muita coisa.

Obrigada, Isabel.