Foi a primeira vez que ela saiu.

Em anos. Em muitos anos. Desde as tragédias. Mas como ”desde as tragédias”se já antes disso era… bom, está bem. Já antes disso tudo era mais difícil que… que o quê? Como vamos comparar? Não comparamos. Deixamos assim, antes de todas as tragédias, dos anos de tragédias, já os dias, já os meses, já os longos anos foram mais difíceis do que. Do que o humanamente suportável? Eu fi-lo humanamente suportável, e há coisas piores. Há coisas piores, talvez

Ela. Era aí que íamos. Saiu. Arranjou-se. Foi lindo. Não o fazia (assim, para ”sair”) desde há muitos anos, com a excepção de um casamento aí há meio ano. Então também estava linda. Conseguira reunir as roupas. Também não eram dela. Desta vez, foi a mesma coisa. Aí uns três quartos de hora antes, procurar no guarda-fato. E depois não dar o tempo para tudo, já se vê. Uma saia preta comprida, de quem, nem sabia, nem sabe… como veio ali parar? Alguém, amigo ou conhecido deu, em vez de deitar fora… e ficou ali anos… racha atrás, felizmente tinha boas meias, transparentes pretas (depois de provar uns dez pares todos com malhas e que finalmente foram todos fora). E os sapatos. Lindos e de salto alto. Ela nunca usa salto alto. Ninguém gostará de ler coisa tão trivial… mas para ela, tudo é especial. Tinha uma blusa só de uma alça e um ombro nú, preta com estrelinhas vermelhas cor de vinho. E uma écharpe linda da mesma cor. O cabelo, nem se lembrara de o lavar demanhã para sair hoje. Mas mesmo assim, resultou. Estava linda. Quase tudo era assim, improvisado. Estava feliz. Sentia-se tão leve, assim.

De bicicleta. Felizmente, a temperetura ainda não está muito baixa. Deu para por um casaco de malha e um blazer. Ela não gosta, nunca gostou de roupas de Inverno. É a pele. Aquela pele ”mais macia que jamais toquei na vida” – ouviu tantas vezes, as exclamações de surpresa. Sim. É sedosa e muito sensível a pele, e não aguenta o contacto com a lã. Porque tudo se sente, quando se é assim. Sente-se o ar, e os segredos. Sente-se os leves movimentos de cabeça – mas sobretudo sentem-se os acenares dos sentimentos, as transformações, os sons e os ventos e os ruídos dos sentimentos e os murmúrios dos inconscientes reagindo.

Atravessaram as ruas, era perto e a praça era bonita, é talvez a única praça bonita da cidades e as folhas de Outouno cobrem todo o solo da praça (um dia quando a vida estiver melhor ela tirará umas fotografias para mostrar aos amigos e inimigos e desconhecidos do blog. Por enquanto ela não tem câmara. Tem só os ventos e os rastos das tragédias que a perseguem como o vento que nos segue levantando os cabelos compridos e a écharpe e o casaco atrás de nós quando o vento sopra de frente e nós vamos na bicicleta.

Era uma Igreja. Era a Igreja principal da capital. Ou uma das principais. É aqui que dão muitos concertos, muitos. Os bilhetes são 15 a 20 €. E a Igreja é a Igreja mais feia que já vi na vida. É protestante. A cidade é rica e tudo está sempre pintado e arranjado, mas a Igreja tem as paredes, desertas e desajeitadas, cinzentas e manchadas, como nunca vi uma Igreja assim antes. Não há sentimento, não há calor, não há devoção. Não há sacralidade. É como se continuamente quiseseem manter fora dali a sacralidade. Para além disto não há um elemento de beleza – até a Igreaj da Santa Trindade passa a bonita em comparação… *
O concerto começou. Outra vez explica-se porquê ali, porquê uma Orquestra menos boa. E no entanto, a obra dos compositores, e a sinceridade dos artistas, foi de cair. Que maravilha. Música. A Amada, a Alada. Que ao princípio, quando as tragédia aconteceram, e ela ficou sem música, a dor era tanto que a falta de música lhe fazia o corpo todo gritar de dor. Literalmente. Doía o corpo. Arranhava. E hoje ela ainda não tem como ouvir música a sério.

O concerto, os olhos fechados (estavamos longe ainda por cima) – mas até isso não fez mal. Oh maravilha das maravilhas! Como pode Deus fazer que desçam à Terra pessoas capazes de fazer música, enquanto as outras pensam em como criar os sofrimento dos outros? Enquanto o resto da bangunça? Deus Meu.

À Capellla. Eu adoro música à Capella e Música Sacra. Põem-me no máximo do êxtase – Tudo desapareceu. Claro que tudo desapareceu. E também ela, a amiga que me acompanhava, estava feliz.

Bach, Brukhner, Purcell, Mahler. Espantoso o programa. É assim, o Paraíso.

* Cortei uma frase, pois que desviava completamente do assunto e sem qualquer relação.