Comentários:

Finalmente, respondi… e agradeço as reacções à minha pergunta sobre o chapéu de chuva…. E aliás quem quiser continuar a responder, é muito bem vindo, claro.

Uma possibilidade é que alguém não responda por pudor… mas acho essa razão inválida. Isso seria andar a expôr-se como super-honesto, quando não é preciso para nada. Ora como se vê, é bem preciso.

Resultado de mais inquirições:

Depois da minha história sobre o chapéu de chuva, a minha amiga que aí mencionei, perguntou a várias pessoas o que é que elas fariam, isto aqui na Holanda, e todas responderam que não trariam o chapéu-de-chuva aos perdidos e achados…… !!

Para coisas ”mais importantes”, foi mencionada a possibilidade de ”deixar algures perto do lugar” para a pessoa poder reencontrar (bem, este pormenor, devo dizer que foi mais a experiência de alguém que gostara que tal lhe tivesse acontecido… a pessoa em questão perdera um casaco…e encontrara-o atado a uma árvore, perto do local onde o perdera, o que achara uma óptima ideia). Claro, quando é ao contrário….

A minha caneta, a ver vamos:

Eu no outro dia deixei algures a minha caneta de tinta permanente… já devem imaginar para quantas pessoas, a caneta ”vale” tanto como o chapéu-de-chuva, não é? No entanto para mim, vale. E no entanto, quem a levasse, não se considerará ladrão… E porquê? Digo já que neste País, se alguém a foi entregar… será uma coisa bestial. (hehe). Mantenho-me com a certeza de a ir encontrar… como sei que haveria boa chance em Portugal… foi na minha Faculdade. Ainda por cima… falei com as pessoas que estiveram no local onde inconscientemente tinha a caneta. Ou seja, aqueles estudantes, se guardaram, falaram comigo… A lógica diria que se quisessem entregar, também me teriam perguntado se era minha… mas mantenho-me positiva. A caneta é me indispensável, mas se desapareceu, deixo-a ir… no mesmo momento.

Frutos imediatos da conversa:

No mesmo dia encontrei um estojo sem dono, o qual não deixei no lugar, fui logo entregá-lo, antes que alguém o levasse. (Antes desta conversa talvez a tivesse lá deixado, para ”não mexer” – e por pensar que era lugar seguro… uma espécie de indecisão…)

Entregar dinheiro:
Leram os comentários da Lalage? Aqui, no ”o chapéu de chuva….” Obrigada Lalage. Acho que vocês foram impecáveis.

Pergunto a respeito desse exemplo: não é possível haver um regulamento para casos assim, de forma a que a polícia seja obrigada a dar satisfações, isto é a comprovar se o dono foi buscar, quem, quando? Ou seja, a entrega da Lalage e irmã deveria ser registada. E dever-lhes-ia ser possível pedir satisfações à Polícia, não? Acredito que muitas das pessoas que entregam coisas, também entregam ou gostariam de entregar com o dinheiro, se fosse possível fazê-lo chegar ao dono! Lembro-me de estar nos perdidos e achados em Lisboa, e de ficar embasbacada com a quantidade de mil e uma coisas que por lá há, tudo à espera dos donos, e desacredito agora aquela frase típica, também nas bocas dos polícias ou empregados que lá trabalhavam: não, isso o dinheiro, já se sabe, tiram sempre”…

O que fazer:

Parece-me que já que tanta gente tira… a solução de deixar no lugar… em certos países… e situações, não é boa ideia: talvez na maioria dos casos.

E vou terminar com uma coisa que pensei agora: Deixe-se um papel colado no local onde se encontra o objecto, a dizer que se levou para tal e tal lugar, ou que se levou para entregar, e que a pessoa deve procurar nos perdidos e achados em questão! Pronto! Uma data de chatices poupadas. (não sei se vou passar a andar com fita-cola, para o caso… :))

Kant na prática:

No outro dia, na aula de Ética, ao aprendermos Kant (o tipo é maravilhoso nisto), os exemplos foram escritos a branco sobre o verde, no quadro. O exemplo que a professora escolheu, muito infelizmente não foi um chapéu de chuva! Foi um I-pod. Infelizmente também, pôs-se a questão como se se pudesse dar de imediato à pessoa….. (que o teria deixado caír na rua, sem dar por nada, continuando a andar, e sem que ninguém tivesse visto, nós poderíamos nas calmas ficar com o I-pod, – ou correr a entregá-lo). …. Dá pano para mangas, tudo isto…. a questão está em que ninguém daquela aula se considerará uma pessoa desonesta. Ao discutir Kant, quem se auto-examina seriamente? E quem se conhece a si próprio? Uma Faculdade só é composta de turmas como a minha. No entanto…sabemos como há pouca chance de eu reaver a minha Parker. Estão a ver a relação? Penso que quase todas as pessoas ali pensaram, naquele momento, que ”claro que entregariam o I-pod de volta…”…

Esta é a questão essencial: a diferença entre aquilo que pensamos que faríamos, e aquilo que fazemos quando a situação está a acontecer. Em coisas pequenas e em coisas grandes….!

Outra questão é, a diferença entre o facto de ser preciso levar aos achados, ou ir entregar a alguém, ou de ser só uma questão de dar porque a pessoa está perto…. Isso parece fazer diferença, mas moralmente, não faz qualquer diferença! Ou melhor: até faz diferença no sentido em que dar o I-pod de volta apenas coajidos pelo facto de a pessoa estar perto, é menos moral do que entregar porque se quer entregar, mesmo que isso requira algum esforço.

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Interrompo aqui esta reflexão, não porque esteja acabada, mas justamente porque não acabava! Uma coisa é certa. Reflectindo-se sobre estas pequenas coisas, chega-se às grandes. Não são pequenas coisas!

Tem continuação, e quanta!

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