No último postal, digo que o levar o chapéu de chuva encontrado ”é roubo”. Não sei se está certo dizer assim ou se é afirmação demasiado categórica. O que eu quero dizer é que para mim é roubo? Também não. Gostaria de chegar a algo mais do que o que é ”para mim”. Quero dizer que é melhor mantermos a lucidez de que se temos organizado uma secção de achados e perdidos onde se podem procurar os objectos perdidos, então guardar para nós as coisas de outros, é roubar. Não quero dizer que todos os que fazem isso, estejam a roubar intencionalmente, ou que sejam ladrões. Aquele rapaz não é ladrão. Parece-me até ser um bom rapaz. Para ele, o que está a fazer, obviamente, não é roubar: ele acredita que está a agir bem, e ”como outros fariam na mesma situação” – possivelmente ele não conhece outra coisa.

Ora bem: é por causa deste ”provavelmente ele nem conhece outra coisa”, que não é trivial falar disto, pois não? É trivial a diferença entre um dia-a-dia onde não se pode deixar, por momentos e seja onde for, um objecto, sem que ele logo desapareça, e o dia-a-dia onde deixamos o porta moedas na cabine telefónica e ao voltarmos, notamos que as duas pessoas que entretanto fizeram uso do telefone, deixaram o porta-moedas no mesmo sítio… (já me aconteceu em Portugal, assim como várias situações semelhantes)? Não. É a diferença entre viver com um mínimo de confiança, ou viver rodeado de pessoas em quem não se pode confiar.

Se não se falar disto porque é algo de trivial (ou chamar-lhe-ão moralista?), o resultado é essa sociedade onde massas inteiras de pessoas são como o jovem em questão: se os outros fazem assim, nós também fazemos, e achamos que é normal. Quando isto é normal, as situações relacionadas com este facto, são contínuas.
Esta questão do roubo tem tido um papel bastante grande no meu conhecimento e experiência da cultura que se auto-intitula e pensa a ”Ocidental”, e na vivência de… choques culturais.

Não posso garantir, pois não sei o que o tempo me permite, (e outras obrigações e responsabilidades estão em primeiro lugar) mas quem me continuar a ler, verá como este tema é de importância talvez impensável à primeira vista.

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