Foi ante-ontem, desta vez fui a horas. Depois do comboio, no autocarro para a Universidade, um colega do meu ano, foi simpático. À chegada, perguntou a mim e mais duas colegas:

— Querem este chapéu de chuva?

— Não, obrigada, já tenho um – Disse uma.

— Eu também, – disse a outra.

— E tu? – perguntou-me de novo. Olhei-o com ar interrogador. Andei meses sem chapéu de chuva, pois não trouxe o meu de Portugal, e tudo o que seja ter que comprar coisas é para mim de momento uma grande dificuldade: tenho medo, tenho que me preparar imenso tempo. Custa-me. É uma vitória quando finalmente o faço. Mas eu comprara o meu chapéu de chuva…um dia antes.

— Tens um? – Repetiu ele. Os meus olhos continuaram fixos no chapéu de chuva. Na verdade, neste País, uns quantos chapéus de chuva não são a mais. Aliás porque um não dura muito. O vento. Os roubos. E aquele era mais forte que o meu, fraquote.

— É que deixaram este no comboio. — esclareceu. Oh, pensei, atrapalhada…enquanto os pensamentos passavam no meu espírito.

— E é um bom chapéu de chuva, – disse uma.

— Pois é, – disse a outra. – E eu aguentava-me. Não haveria achados e perdidos?

— Já tens um? Se não tens podes ficar com este. Se tens eu vou dar ao Jan – acho que ele no outro dia não tinha. Eu já tenho um. De alguém que no outro dia deixou no autocarro, também. Não queres?

— Não, obrigada. – Consegui finalmente dizer. Um guarda-chuva roubado, pensei. E queria perguntar se não podia trazer a uns achados e perdidos… mas não perguntei. Porquê? Por ser ofensivo…
Passadas 3 horas de aula de metafísica, depois do comboio chegar a Haia, já na estação, aquilo continuava a rodar-me na cabeça. Vejo dois homens de uniforme, da Ferroviária:

— Boa tarde. Digam-me por favor: não existe uma secção de achados e perdidos?

— Sim. Claro. – E seguiu-se explicação de grande e esmiuçada rede de achados e perdidos. Podia-se entregar o chapéu de chuva em qualquer das estações ferroviárias, rodoviárias, sem exigência de perda de tempo.

Mas o que ele fez é o normal. Por isso é que eu não perguntei nada. Como é que se encaixa isto na minha mente? É roubo, mas não se pode dizer nada porque o que ”para mim” é roubo – e é roubo – para ele não é roubo. Como para mim é roubo, é ao mesmo tempo ofensivo perguntar. Para mim seria ofensivo, se alguém me perguntasse isso. Deve partir dele, não? Claro que sim.

— Oh! – disse a Juno, quando lhe contei. – Isso não é roubo. Eu faria o mesmo.

— Pois então, ficas a saber: não o faças nunca, porque é roubo. E sei de milhares de pessoas em Portugal que, mesmo pobríssimas, fariam tudo para ir entregar o chapéu de chuva. Disse eu.

— E se ninguém for buscar? – Perguntou.

— Se ninguém for buscar é porque todos roubam, e alguém tem que quebrar o círculo e quando mais pessoas levarem, mais vão buscar.

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