Beethoven – Symphonie Nr. 6 (Pastoral) I
09:33

From: bugopolo

Eu sei uma história. Sei contar uma história. Há pessoas que escrevem porque sempre tiveram talento para tal. São os grandes escritores. Há pessoas que escrevem apenas porque chegaram ao limite de tudo.

O Alberto tinha chegado ao limite de tudo. Por isso ele escreveu bem. Simplesmente. E com luz. Como se escrevesse para uma mulher, quando ele escreveu um pouco sobre o amor, escreveu bem. Oh eu bem sei que esse tipo de perdição… prendeu-nos, acorrentou-nos, como se só essa perdição fosse real. Como se tudo tivesse que meter sempre o asco, para ser real.

Existe outro rosto no Al Berto, de quem falo. E eu chamei-lhe poeta verde. Mas passaríamos lado a lado em sentidos contrários e não nos teríamos entendido…Há sempre qualquer coisa idêntica a essa província onde me chamaram nomes, logo, desde pequena. Nomes, sempre os mesmos mesmo que soem diferentes. São sempre julgamentos que falam do vento que ácido, vermelho, vem do longe –

Oh quem diz que é com as vossas pa-la-vras, vossos tijolos, construídos nos fornos desde os tempos do hereje Akhenáton – quem diz que é com esses que lanço o meu grito – faltam-me as pa-la-vras. Era ainda tão criança e menina quando fui expulsa da cidade, do cio, do meu Sol.

São horas de dormir. Não durmo há meses. Tudo roda na minha cabeça exausta. Mas hoje vou dormir. Porque escrevi. Não sei que faço. Escrevi não por ser escritora nem poeta – e que te importa a ti que eu seja? Apenas a mim me importa porque nos temos que levar a nós um dia, a Ele. Engraçado. Eu, que nada sei, isso, eu sei. E de nada absolutamente de nada serve esse saber inútil. Mas de nada disto agora devo falar. Mais vale não deambular por caminhos de que tenho que apagar depois os vestígios – que trabalheira de novo. Não fiz eu outra coisa senão apagar os vestígios de todos os lugares por onde passei. Não fiz eu outra coisa senão passar sem deixar vestígios…. e continuo dizendo aquilo que exige de mim apagar, e voltar atrás. Rever, e corrigir, e cortar. Não posso mais. É disso que – não posso mais. Estou enjoada de cortar, de segurar, de pesar. Eu quero deixar todo este caminho, encontrar um riacho, saltar completamente para o desconhecido, um riacho que se crie aqui agora já, inevitavelmente divino, surgido das entranhas deste deserto que habito há anos tão longos que vou passar a maior vergonha ao ter que dar conta destes anos.

Cheguei aos limtes. De tudo e do nada. Sei os nomes que me chamam, que sempre chamaram Ah era aqui que íamos! Essa ponta do lenço de algodão real: os nomes que me chamam. Porque haveria de ser esse material menos bom como ponto de partida? Menos bom do que qualquer outra coisa?

Eu conheço o desespero dos túneis debaixo da terra – eu conheço tudo, conheço o altíssimo além – pobres! Pensam eles que falo de poesia, – e conheço as entranhas de tudo – mas daquilo a que chamam vida, daquilo a que chamam Mundo, eu nada sei.

Por isso não sirvo. Não sirvo para fazer café. Não sirvo para a decoração das paredes do destino, e está certo que não sirva pois se nunca decorei nada, nem casa, nem sala, nem quarto. Gosto apenas de paredes nuas. De chão nu. Gosto da cal. Da pedra.

Mas agora devo terminar, e não para continuar. Nada se sabe sobre o amanhã. Sei apenas que a cama precisa ser mudada. E que até isso me custa. Vou mudar os lençóis que passarão a lençois apenas porque ninguém é capaz de se levantar e dizer não – Eu seria capaz se reunisse as condições, mas eu, não sou. Para dizer não, é preciso ser-se algo – ter defenição. Eu, nada tenho, a não ser um Universo enorme e virgem inteiro por resolver. Atirar-me a ele, exactamente como os pobres dos condenados eram atirados aos leões. Sim. Assim. É esse o meu programa de amanhã, de domingo. É preciso atravessar isso antes de viver. Antes de saltar nesse rio do desconhecido.

Engraçado, mas escrever é simplesmente nada querer.

A agora interrogo-me se vou deixar isto para aqui a sangrar… Sim tem que ser, por causa do eco. Gritar no seio destes rochedos escarpados e altíssimos onde me encontro perdida, e não receber o som do eco de volta é demasiado para a minha fragilidade. É apenas o acto da Natureza. Da nudez. É, afinal, apenas a ela que falo. Às rochas escarpidas em volta do abismo. Não guardo porque não há mais tempo para guardar. Vivemos no fim. Não há mais tempo. É preciso gritar. Não há mais tempo para tudo o que quero, a preparação – Oh pobre de mim!!! O aprender, o aprender que tanto procuro! Não. Há só este ficar assim nú em toda esta pobreza. Nú com tudo o que falta. Sem sexo, sequer. Sem amanhã. Só ansiando de novo aquele rio que conheci, sem mais nada, suspensa, até o momento de poder saltar no rio que me limpe de novo. Não esperando mais a alegria. Mas simplesmente estar limpa.

E não falei do vento que ácido, vermelho, vem de longe. Não faz mal. Isso são apenas os julgamentos dos outros que falam exclusivamente e sempre de si próprios. Os tais nomes que me chamam.

Resusmo:

O importante? Não esquecer: Eu, nada tenho, a não ser um Universo enorme e virgem inteiro por resolver. Atirar-me a ele, exactamente como os pobres dos condenados eram atirados aos leões. Sim. Assim. É esse o meu programa de amanhã, de domingo.