Falando de fúria sagrada; de discurso inspirado; de falar que respira:

SERMÃO DA CARIDADE

Pregado na 5.ª dominga da Quaresma de 1839 na Sé de Lisboa pelo Cónego Arcipreste da mesma Sé, o Doutor de capelo em Cânones Augusto Frederico de Castilho

Deus, para tornar as virtudes caras, e acessíveis até aos mais faltos de discurso, não criou a caridade, senão que a tirou de suas próprias entranhas, e orvalhando-a sobre a terra, lhe deu por bênção que de todas as mais virtudes fosse ela semente e fruto, seiva interior e graciosa florescência; e ela aí nos ficou independente de qualquer reflexão, afecto inato, instinto (porque o não diremos?), instinto moral. Ainda mais, senhores: não só a tornou o mais profundo, mas também o mais extenso de todos os afectos, para que, sobre encher-nos o coração de virtude, ela no-lo pudesse ocupar; sobre constituir-nos felicidade, no-la pudesse tornar permanente. Oh! que maravilhosa não é esta caridade, que em todas as idades, e em todas as circunstâncias da vida e do mundo, sempre acha alimento, sempre lhe renascem objectos, e infinita como o Céu, donde procede, cobre, como ele, toda a Natureza criada, passa dos homens aos animais brutos, destes aos próprios entes insensíveis, adivinha infortúnios, inventa e persuade socorros, até para entes que os não sabem agradecer, que os não requerem, que os não precisam!

Tem a caridade, como as demais paixões, os seus excessos; momentos em que se não sabe conter, nem governar; suspiros, lágrimas, e desalentos; entusiasmos, ímpetos, e arrojos heróicos; mas, como tudo lhe nasce do amor e compaixão, tudo é terno, tudo é mavioso e consolador. Virtude de virtudes, virtude única onde não há excessos. Pela caridade principalmente nos podemos dizer imagens de Deus, e obras-primas da criação. Ler

Anúncios